Microcontos

#02.073 – 19 de Abril

Três segundos para que o escuro tomasse forma. Dois para que voltasse a ouvir a voz dela. Um para que o cheiro doce invadisse suas narinas.
Renasceu pela quinta vez naquela semana. A enfermeira segurava sua mão com doçura. A médica tomava notas.
– De novo. – A mulher ordenou.
E tudo voltou a ficar escuro antes que ele pudesse perguntar o nome dela.

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#02.073 – 18 de Abril

A quantidade de livros mal cabia no quarto. Temas dos mais diversos. Teria muito o que aprender. Horas e horas para se ocupar.

Finalmente, quando terminasse de estudar todos os outros, poderia ler aquele que tanto queria e fora o primeiro. Mas antes, lembrou-se de mais algumas coisas que desejava estudar.

#02.072 – 17 de Abril

No décimo oitavo ano rezando sua prece foi atendida. O raio atingiu seu peito em cheio. Acordou com o corpo brilhando numa cama de hospital. A corrente elétrica era visível no ar.

Encontrou os olhos de sua mãe do outro lado do vidro do quarto completamente isolado. Ela chorava. Foi quando soube que jamais sairia dali.


#02.069 – 14 de Abril

Em seu último suspiro, a anciã amaldiçoou o trono e seus herdeiros. Ninguém jamais se sentaria por muito tempo ali.

Década após década, o anátema se cumpriu. Pais, filhos, primos, irmãs, mães, avós. Todos encontravam seu fim no cálice ou na espada, até o dia em que o trono caiu pelo povo.

A maldição tinha nome. Ganância.

#02.068 – 13 de Abril

O teto cedeu logo após o último assovio. Nos livros, sempre lera que a justiça viria de cima. Olhando agora, os pais esmagados pelo concreto, se perguntava que crime havia cometido.
Foi então que a segunda bomba tomou-lhe a visão.